Luz, Câmera, Post

January 30, 2007

Diamante de Sangue

Filed under: Resenha

Gênero: Drama
Direção: Edward Zwick
Elenco: Leonardo Di Caprio, Djimon Hounson, Jennifer Connely, Arnold Vosloo

De Zwick, vi dois filmes: Nova York Sitiada e O Último Samurai. Dos dois, o principal atrativo são o apuro com a paisagem (mesmo se tratanto de lugares distintos como a Nova York atual e o Japão de tempos onde a Inglaterra ainda navegava) e as atuações. No primeiro, um quarteto do barulho, formado por Denzel Washington, Anette Benning, Bruce Willis e Tony Shaloub, que sustentam com muito carisma um roteiro um tanto capenga e com aquele ar de os Estados Unidos salvam o mundo, tão comuns e que, quando bem interpretados, seguram o filme.

Já no segundo filme tinhamos Ken Watanabe, a única referência realmente japonesa, com seus códigos de honra e toda a mitologia dos samurais, dentro de um filme americano. É como se Takeshi Kitano tivesse dado umas dicas ao diretor da cidade de Chicago. Saiu-se bem, apenas do enredo mais uma vez dar aquela empurrada para a sobreviência do modelo inglês (que mais se assemelha ao norte-americano) de ser e estar. O inglês Tom Cruise adora o Japão, as japonesas, e reencontra a redenção no modo de vida oriental. Mas sua bravura, sua coragem e sua fidelidade a quem lhe ajudou são tipicamente do lado de cá.

Não chega a corromper os filmes citados. Deixa um gosto amargo, mas isso até as coisas boas como café, chocolate e cerveja o têm. E há o público que adora, é claro. A situação só complica quando lidamos com algo que a culpa ocidental é latente, e onde o abandono dos países "desenvolvidos" (o termo é geral, e tenho muitas controvérsias sobre) é fato que não dá para esconder.

Falamos dos diamantes de sangue, que são exportados da África para Europa e América. A custa de muitas vidas, ou braços dependendo do humor do "coronel" em questão (detalhe interessante é que a arte de cortar braços não vem dos milicianos africanos, sempre pintados em filmes como este como insanos possuídos pela luxúria, pelo poder e consumidos pelas drogas. Os belgas, eles mesmos, símbolos de classe por seus chocolates e suas cervejas, foi quem começaram a deixar as colônias africanas manetas). Em uma das muitas áreas de mineiração em Serra Leoa está Solomon Vady (Dijmon Hounson), pescador que tem sua família raptada por milicianos da FUR (Força Unida Revolucionária). Do outro lado temos Danny Archer (Di Caprio, melhorando a cada dia que passa), traficante de diamantes, "adido" das corporações de venda do produto da Europa no continente africano. Archer é natural do Zimbabue, chamada Rodésia quando ainda colônia e assim tratada pelo personagem. O descaso dele pelo continente reflete o do países desenvolvidos; de lá sai apenas seu sustento, a colônia de sua metrópole pessoal.

Solomon vê a oportunidade de uma vida quando acha um diamante de 100 quilates, pedra mais preciosa dentre as preciosas. A chance de reaver a família, o filho mais jovem que, como tantos, seria treinado pelas milícias para a guerra. Archer vê a oportunidade de ir embora da África através da pedra. No meio disso tudo, Maddy Bowen (Jeniffer Connely), jornalista idealista, vê a chance de ter a matéria que colocará e maus lençóis os importadores de diamante da Europa. Uma boa metáfora, um usa o outro e todos usam a África. Problema aqui é a condescendência de Zwick com os países grande, isentando-os de culpa, dizendo em linhas claras: quem compra é você, o problema é seu. Não deixa de ser verdade, mas o buraco é mais embaixo. Ou melhor, mais em cima, visto que lá embaixo temos apenas a África, ela sim a grande prejudicada de toda a história, seja por diamantes, marfins, ouro, petróleo. São todos marionetes de seus sistemas, das políticas adotadas por seus países.

Nota: 3 estrelas e meia na testa de Edward Zwick, mais um visto para sair dos EUA. Junto com seu cinema.

November 3, 2006

Os Estados Unidos contra John Lennon

Filed under: Resenha

Direção: David Leaf e John Scheinfeld
Duração: 99 minutos
Documentário

O que Noam Chomsky, Gore Vidal, Tariq Ali, Carl Bernstein, Bob Seale (ex-líder dos Panteras Negras), John Sinclair (ativista político norte-americano), Yoko Ono, Ron Kovic (autor do livro que deu origem ao filme "Nascido em 4 de Julho) e Geraldo Rivera (aquele do bigodinho e dos programa de auditório Geraldo, que alegrava as tardes/noites do SBT) têm em comum? Alguém conseguiria reunir tanta gente diferente abordando sobre o mesmo tema? Pois os diretores de O Estados Unidos contra John Lennon conseguiram. E bem, por sinal.

Rico em imagens de arquivo e em histórias curiosas sobre como o governo Nixon resolveu afiar as garras para combater a campanha pacifista do ex-Beatle, em especial por conta da participação do músico em atos políticos contrários à Guerra do Vietnã, o documentário, essencialmente fundado em declarações dos supracitados, dentre outros, e na mítica figura do casal John e Yoko, alçados ao status de representantes carnais da paz e do amor, peca em apenas um ponto: é de mão única.

É comum, na construção de documentários, que diferentes partes sejam ouvidas. Michael Moore, o atual incensado do gênero, costuma por seu alvo para tropeços públicos, além é claro dos opositores ao tema em questão. Antes de ser um recurso, dá ao espectador a impressão de imparcialidade e isenção do fato em tela. Com Os Estados Unidos contra John Lennon, fica-se a estranha sensação de propaganda institucional, um filme de fãs do trabalho e, acima de tudo, da figura libertária e pacifista que o músico representa até os dias de hoje.

De resto, trata-se de um deleite. Imagens históricas de Nixon, dos protestos contra a Guerra, Panteras Negras ao lado de ativistas brancos e do senador George McGovern falando em uníssono, o caos unindo os eqüidistantes. A trilha sonora, obviamente, é o grande elemento do filme e a figura emblemática de John segura o espectador. Mais do que um mito, Lennon, diferente dos outros Beatles, tinha completa noção do quanto sua imagem agregava e do quanto aquilo poderia ser usado a favor das causas que defendia. Mais do que um músico, John passa uma imagem messiânica, do justo, do generoso, daquele que rebate a violência com sorrisos. É isso que Leaf e Scheinfeld destacam no filme. Mais do que letras, Lennon fez história; com um sorriso humilde no rosto, daqueles que parecem não ter a menor noção do tamanho, o ex-Beatle passava imagem de fanfarrão dizendo tolices. No fundo, todos sabiam que Lennon era muito mais experto do que aparentava. E também tinham noção do perigo que representava para o stabilishment mundial.

Nota: Três estrelas na testa de David Leaf e John Scheinfeld.

July 3, 2006

Carros

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Carros, o primeiro filme da Pixar sob a égide dos estúdios Disney, é a obra mais perfeccionista que já se viu num filme de animação. Tem direção de John Lasseter, homem todo-poderoso do estúdio e, perdoem-me quem pode achar heresia, alguém pronto para ser o Walt Disney do século 21.

O filme parte do princípio de que os carros são humanos. Talvez John Carpenter com Christine, o Carro Assassino tenha chegado perto disso, transformando o transporte numa máquina de matar. Em Carros eles são as pessoas em si. Até as moscas são carros, eles consomem gasolina como se fosse comida, transformando até os combustíveis oriundos de fontes renováveis em uma espécie de "comida vegetariana" para os possantes.

Relâmpago McQueen é um carro estreante prestes a ganhar a Copa Pistão, e será o primeiro a conseguir tal feito. Após um acidente, onde seu caminhão de transporte dorme na pista (sim, "o" caminhão dorme. Sem contar que o sua carroceria tem algo parecido com um boné, no melhor estilo Falcão, o Campeão dos Campeões), Relâmpago para em Radiator Springs, uma cidade enclausurada na mítica Route 66.

 

"Meu dentista nunca me disse que Bardhal era bom pra cárie, sô!" 

Lições típicas dos desenhos Disney pululam daí para frente. Amizade, confiança, respeito, afeto e que tais. Como roteiro, Carros perde para seus parceiros de estúdio, como Procurando Nemo ou Monstros S.A, mesmo tratando bem a questão do saudosismo. Mas as imagens de Radiator, os carros da cidade, um velho Hornet da década de 50, os compactos italianos e "a" Porsche Carrera com direito a tribal são um show de efeitos visuais. Se perde e muito para as idéias e lições de Toy Story e afins, Carros faz o impossível e dá um banho em todos no quesito animação, coisa que parecia inimaginável até então.

Após as duas horas de filme, você não sai do cinema com uma mensagem, como seria mais do que provável num filme Disney. Mas sai, sem dúvida, com a impressão de que Walt Disney sorri feliz por ver que sua empresa arrumou um sucessor de grande cacife.

Nota: quatro estrelas mais um "continue assim" na testa de Lasseter.

X-Men 3

Filed under: Resenha

Diante de um tema central interessante, uma possível cura para o gene X, temos de volta os mutantes, aos montes. Eu, que não sou muito fã de gibis (desenvolvi meu amor pela leitura de qualquer coisa somente aos 18 anos, o que tornaria inviável - financeiramente - conhecer toda a história de todos os heróis a tempo de ver quiçá o Namor nas telonas), digo aqui o que X-Men 3 - O Confronto Final, trás para o cinema: uma continuação.

Brett Ratner, perdoem-me o lugar-comum, nunca será Bryan Singer. O primeiro chegou a fama com A Hora do Rush, filme legal com Jackie Chan e Cris Tucker. Para quem viu Máquina Mortífera, uma ótima Sessão da Tarde.

O segundo apareceu para o mundo com Os Suspeitos. Para quem viu Psicose, um sucessor. Singer trouxe aquele frisson que o Mestre Hitchcock nos deu durante sua carreira cinematográfica. Roteiro, atores e um final exuberante fazem deste filme um dos melhores da década de 90.

Em X-Men tínhamos a apresentação dos mutantes aos incautos, como este. O tema era o preconceito contra determinada raça (e a cena de Magneto no campo de concentração ilustra perfeitamente) e a evolução dos mutantes em relação aos humanos, sempre eles. Detalhou-se o bem, o mal e o mal maior, os homo sapiens e suas armas.

Em X-Men 2, tínhamos o desenvolvimento do roteiro do primeiro filme. Novos mutantes, a mesma idéia de preconceito elevada à solução final pelo General Striker (Brian Cox) e até um epílogo sobre a cura (o líquido extraído do cérebro do filho de Striker que permitia ao general controlar os mutantes). Mais uma vez, voltamos a Hitchcock: Singer fez uma das maiores cenas de abertura do cinema, quando o mutante Noturno invade a Casa Branca para assassinar o presidente dos EUA.

Por que Hitchcock? Quem assistiu Janela Indiscreta sabe o por quê da escolha.

Com o sucesso dos dois filmes, Singer era a figura certa para o terceiro filme, correto? Não se você é um dos empresários de Hollywood. Singer teve problemas com a Fox, distribuidora da obra, e foi para a Warner dar vida a Superman Returns. Como para dar o troco, mas sei essa intenção toda, a Fox chamou Rattner, justamente o diretor do projeto da volta do Homem de Aço aos cinemas.

Troca feita, temos dois estilos eqüidistantes. A primazia com que Singer fazia os filmes foi substituída pela correria de Ratner. O que não vem a ser ruim num filme como X-Men, pelo contrário, talvez se torne até mais competente do que aparenta ser.

Mas antes que eu comece a falar demais sobre bobagens como técnicas de filmagem, câmeras, roteiro e blá blá blá, vale lembrar que Colossus arremessa Wolverine. E que, no cinema, você não precisa de nada mais além disso.

Nota: quatro estrelas mais um "continue assim" na testa de Brett Ratner

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